top of page

PROCESSO DE DESENVOLVIMENTO DA OBRA

.JPG

Vista da exposição 

SOBRE ANJOS, SANTOS E GUERREIROS - ENTRE O PROFANO E O SAGRADO​

 

Marcus Zayit faz parte de um mundo cuja conjuntura histórico-social resulta em um povo com uma consciência e atitude de forte religiosidade: nasceu no nordeste, no interior da Bahia, região com raízes entranhadas na cultura portuguesa, de remota idade média, de arraigado messianismo/sebastianismo, os quais podemos encontrar na tradição popular da literatura de cordel, cordel que ilustra os folhetos de poesia de cunho do romanceiro medieval, incluídas aí as sonoridades musicais e linguísticas. Sua ascendência africana que contribuiu, no início, para marcar sua obra, é outro fator que o norteia. Nesta exposição, porém, observamos que, aos poucos, ele se abstrai desses vínculos, construindo uma iconografia própria. Autodidata, Marcus foi obrigado a inventar, sozinho, os recursos com que passou a se expressar: o desenho, as formas, a aplicação e a distribuição da tinta, a composição e o espaço, em busca de uma ordem só sua.

 

São muitos os caminhos que nos desvendam sua obra, desde os procedimentos técnico/formais aos estéticos e simbólicos, de personagens irreais e mitos; à harmonização e o jogo das cores no espaço; ao ritmo suave de pinceladas planas; ao contorno acentuado das formas; ao marcante colorido do plano de fundo; aos meandros de figuras que se entrelaçam em irrealidades. A partir da observação de uma obra já executada, aliada ou não a uma rápida pesquisa sobre temas de seu interesse, de sua vivência, ele registra o que está ao alcance de seus olhos, de sua imaginação, sempre na busca de atualizar sua expressividade e atingir patamares cada vez mais altos e degraus mais profundos, segundo seu objetivo de transpor para a tela um mundo rico em irrealismos.

Marcus Zayit constrói um panteão mítico e místico de santos e anjos, próximo mais do mundo dos homens, tal como os deuses gregos e africanos, que muitas das vezes desciam a terra para amar, lutar, conviver e usufruir das coisas mundanas. Para seu panteão ele traz ainda dragões e bestas feras, símbolos do poder de deuses e humanos sobre tudo e todos, e sobre o mal, quem sabe na expectativa da salvação. Nesse espaço Marcus constrói sua arte, muito particular, muito pessoal e que agora pode ser vista nesta exposição do Centro Cultural da Caixa - SP.

Sua pintura revela uma religiosidade transcendente com imagens carregadas do sentido de sagrado e uma iconografia que se aproxima da arte bizantina, pintada em primeiro plano, sem perspectiva. Limpidez e precisão no executar, em definir as figuras, estruturar a composição e escolher com apuro as cores; cenas mágicas, em que figuras humanas, anjos, santos, guerreiros, dragões, serpentes se integram, fazendo surgir imagens inesperadas, sempre com rigor formal, em cenas que incitam à indagação/reflexão e a uma análise mais acurada da sua representatividade.

Analisando a linguagem das formas, de imediato percebemos o contorno limitativo das figuras “Uso sempre um pincel especial de mesmo número para não diferir os traços; para não tremer mantenho a mão firme e deslizo o pincel sobre a tela sem interromper”. Através de um traço largo e firme o artista, ao mesmo tempo em que delimita o espaço entre a personagem e o fundo, entre a forma e a cor, integra-os sem qualquer tipo de tensão. São uma e mesma coisa, não têm vida se isolados – os personagens se conformam aos planos de cores. São contornos vigorosos, perfeitos, traçados à mão livre. A eles junta pequenos traços como a quebrar sua suposta dureza. Nossos olhos porém não se fixam numa só forma e sim passeiam por elas, pelo espaço, pelas cores, pela composição, a indagar sobre a figura fantástica: o que significaria? A curiosidade está despertada, a emoção está presente. Marcus Zayit esculpe formas (anjos, homens, bichos, santos e guerreiros) como se fossem seres fantásticos que nascem de sua mente e dominam nosso olhar, faz voar nossa imaginação.

Suas telas, já agora para além da paleta tropical do início de sua produção, buscam maior leveza das cores. O colorido domina a composição. O cromatismo tem vida própria, parecendo quase engolir as figuras, que a ele se agregam; o artista pretende como que outra percepção da cor transcendendo seu próprio valor. As pinceladas, extremamente lisas, auxiliam na construção de uma atmosfera de parâmetros desconcertantes: ao mesmo tempo em que conseguimos identificar seus bichos, guerreiros, anjos e santos, neles pressentimos algo fora do real. Uma aproximação aos valores visuais cria forte relação entre o sacro e o profano.

 

Refletindo sobre sua composição, de imediato notamos que seus corpos possuem volumes escultóricos muito mais próximos da planimetria do que propriamente do volume. Em algumas obras, mãos e pés são agigantados, sugerindo, como em Portinari, que ele tanto admira, força e apego à terra. Em outras, seus corpos estão como que descarnados, incompletos, sugerindo uma condição mais celestial e, ao revés, em seus santos essa incompletude lhes dá uma característica mais terrena. Rostos alongados, narizes largos, lábios grossos, olhos bem abertos, se compõem à maneira pré-renascentista ou do art déco. “Gosto das coisas muito bem definidas, o uso da linha/contorno é grossa e escura para definir e realçar as figuras na obra, isso vem desde os meus primeiros desenhos realizados com tinta guache ainda no interior da Bahia”.

A leitura da arte de Marcus Zayit se faz ainda através de analogias, independentemente das classificações tradicionais e de estilo e com um suporte baseado na relação espacial entre figura e fundo, movimento e cores, poética e forma de expressão.

Há composições que se diferenciam visualmente por priorizarem mais uma variável que outra, tudo associado ao universo simbólico-imaginário. Suas deidades – cristãs ou africanas - e seus guerreiros são identificáveis e caracterizáveis também através de signos que complementam seu universo imagético: ele sabe trabalhar esses valores. Assim encontramos, por exemplo, pássaros estilizados que lembram a pomba da paz ou a representação do Espírito Santo (no catolicismo); ou triângulos, que nos remetem tanto à religião católica quanto à maçonaria; ou círculos, com ilações à mandala, representam a totalidade, a inteireza, a perfeição, o infinito, a eternidade, a paz, que, ao final, é também a sua busca.

A dicotomia está em toda sua obra. Nas figuras, principalmente as de santos, que parecem levitar carregadas por pequenos anjos que reforçam suas condições de perfeitos, eternos. Já serpentes e dragões, subjugados sob o poder de lanças ou espadas, são colocadas na parte inferior da composição, indicando sua circunstância de seres maléficos que precisam ser dominados. Porém, seus guerreiros sempre possuem asas e coroas, símbolos do poder transcendental. São guerreiros de luz! A construção se completa com cavaleiros divinizados que conduzem, em lugar de cavalos e carruagens, veículos estranhos, extraterrestres, abstratos.

A um dado momento, o artista não se contenta em pintar sobre tela, ele transporta suas imagens para o tridimensional construindo objetos com uma linguagem ancorada em raízes nacionais de signos religiosos, aqui sim, afro-brasileiros. Identificamos nessa produção um hieratismo despojado, uma construção geométrica composta de formas orgânicas e inorgânicas. Ele brinca com a nossa noção de espaço: o espaço real – o canudo de papelão; o espaço imaginário -onde são colocadas formas de intensas cores; e o espaço final, que só é percebido por ele mesmo e por nós quando o circundamos e/ou analisamos.

Irrealista e metafórica, essa imaginária rica em elementos fala primordialmente do universo interno do artista, de seu processo de criação, de uma pintura que se mede pelos resultados visuais, pela riqueza de evocações, pela liberdade do autor, por sua percepção e reflexão sobre o mundo, um mundo rico de cores e formas, um mundo de contrastes entre o simples e o complexo, entre a realidade e o imaginário, unindo literatura e fantasia, resultando numa interação mágica e inovadora. Seu trabalho aguça nosso olhar e nos faz perceber que tudo são perspectivas de um artista universalizante.

(*) Elvira Vernaschi​​

Curadora, historiadora e crítica de arte

Membro da ABCA e AICA – Associações Brasileira e Internacional de Críticos de Arte

São Paulo, Julho de 2012. 

GUERREIROS_DA_ANUNCIAÇÃO,AST_200X800_C
Guerreiros da Anunciação, acrílica sobre lona, 200 x 800 x 5 cm — Obra composta por cinco painéis medindo 200 x 160 x cm. Coleção Gilberto Chateaubriand, Rio de Janeiro, RJ. Obra ​reproduzida no catálogo da exposição “Sobre Anjos, Santos e Guerreiros” realizada na Caixa Cultural — São Paulo, SP, (2012).
bottom of page